A polêmica a respeito da privatização da Pedreira Paulo Leminski, da Ópera de Arame e do Parque Náutico tem alimentado debates na cidade. A Prefeitura deu início ao processo que prevê a concessão privada destes três importantes espaços de cultura e lazer em Curitiba pelos próximos 25 anos, no mínimo.
O prefeito Luciano Ducci, que tem evitado falar no assunto, provando que o tema representa um possível prejuízo eleitoral, fez a opção baseando seus argumentos na dificuldade financeira do município em arcar com as obras de readequação dos locais. Argumentos que, aliás, vem sendo sustentados também por empresários ligados à produção de megaeventos.
Coincidentemente, este ano, pela primeira vez, nenhuma peça do Festival de Teatro de Curitiba foi apresentada na Ópera de Arame, desde que o evento foi criado, em 1992. Difícil de acreditar que esta decisão seria decorrente de problemas estruturais. A última reforma para manutenção e melhorias na segurança deste que é um dos teatros mais charmosos de Curitiba ocorreu em 2006. Já a Pedreira, fechada por decisão judicial, parece finalmente estar perto de voltar a receber grandes shows. Depois de anos de uma novela sem fim a Prefeitura chegou a um acordo com a vizinhança e com o Ministério Público, que liberou o local para eventos desde que cumprido alguns requisitos.
É aqui que me pergunto: depois de todo o investimento de dinheiro público nestas áreas a Prefeitura não tem condições de fazer as adequações necessárias? O cálculo prévio da Prefeitura para as reformas é de R$ 15 milhões, conforme previsto no edital. Este montante não chega a 0,3% do que está estimado para ser arrecadado este ano pelo município. Só no primeiro quadrimestre deste ano, a Prefeitura já conta com um superávit de R$ 139 milhões. Ou seja, seria possível fazer os investimentos necessários e ainda assim sobraria muito dinheiro para aplicar em políticas de promoção cultural, algo que vem sendo deixado de lado nestes últimos anos.
A Ópera de Arame e a Pedreira Paulo Leminski foram praticamente abandonadas pela atual gestão da Prefeitura, conformando um retrocesso na já escassa estrutura dedicada à cultura paranaense. O fechamento dos cinemas municipais como o Ritz, o Luz, o Groff, o Guarani, e a agonia da Cinemateca reforçam esta constatação. Na região do Portão é de se lamentar a situação do Museu Metropolitano de Arte de Curitiba, fechado desde 2005.
Contraditoriamente, a Prefeitura, com apoio da maioria da Câmara Municipal, aprovou a utilização de recursos públicos para uma obra privada em Curitiba, na ordem de R$ 120 milhões, por meio da utilização de potencial construtivo. É o que será “doado” ao Clube Atlético Paranaense, para a construção da Arena da Baixada visando a Copa do Mundo.
Estou convencido de que os argumentos sobre a incapacidade financeira do município não cabem para este debate. Neste caso, só resta outro; o da incompetência dos gestores em desenvolver políticas de promoção cultural em Curitiba. Confesso que tenho sido levado a acreditar nisto, com a triste constatação de que o valor da cultura e o lazer é medido pelos administradores públicos de acordo com a quantidade de votos que podem gerar nas eleições. O modelo de gestão da cultura no município, capitaneada pela Fundação Cultural de Curitiba, deixa um prejuízo imensurável para a cidade. A redução dos já escassos espaços públicos para a cultura transformam o cenário curitibano, retirando do horizonte a lógica de uma curadoria baseada no interesse público, fundamental para uma formação sensível de cidadania e conscientemente crítica sobre a sociedade. Este é o preço que se paga por opções de gestores que assumem sua incapacidade de planejar a coisa pública para a alegria de empresários que vêem na cultura e no lazer um negócio, uma mercadoria, cuja lógica é a do lucro. A privatização dessas áreas se expressa no crescimento vertiginoso de uma indústria que se desenvolve nos grandes centros, tomados por shoppings, e que transformam tudo em produtos comercializáveis.
É preciso refletir sobre que tipo de cultura os curitibanos e os paranaenses estão construindo. Para qual modelo de formação estamos caminhando e que será herdada por nossos filhos. Parece-me que seguimos a passos largos para uma produção cada vez mais restrita às formas de expressão autênticas, em benefício de um modelo de consumo de arte e lazer. Com o avanço da privatização de espaços públicos, a tendência é o aprofundamento de uma cultura na qual terão acesso apenas aqueles que podem pagar.
Nesse sentido, corremos o risco de verificar uma cultura popular cada vez mais marginalizada e restrita a verdadeiros guetos sociais, algo já evidente na atualidade. Estas são apenas algumas questões que precisam ser analisadas e questionadas pela sociedade quando repentinamente aparecem propostas de privatização do espaço público.
Por Flávio Jacobsen*
Domingo, feirinha em tarde de sol e céu azul, depois de pastel, água de coco, um livro do Anthony Burgess comprado em sebo. Eu e a moça bonita demos de não ter o que fazer. Daí lembrei que umas pessoas andaram me escrevendo pedindo livros meus.
Publiquei uns títulos de poesia há algum tempo. Nada de mais. Também não tenho um exemplar que seja. Doei boa quantidade de exemplares de um desses livros pra Fundação Cultural da cidade. Faz mais de dez anos, certeza. Lembrei de onde eles poderiam estar, e pensei em passar lá conferir, pra eu comunicar a essas pessoas que me escreveram. Era um setor que funcionava todos os dias da semana, um espaço dentro do Largo da Ordem, uma livraria/loja que vendia livros e discos produzidos no Paraná, entre outros badulaques. Uma grande maioria desse material era realizada através da Lei de Incentivo à Cultura, em seus mais diversos formatos. Era a livraria Dario Velloso, mantida pela Fundação Cultural de Curitiba, onde se podia comprar boa parte da arte feita aqui. Um espaço que considerei absolutamente sensacional à época. Em tempo: este livro meu que eu procurava, de 1997, foi lançado por uma editora underground, não foi feito por lei de incentivo alguma. Tudo bem.
Debaixo do sol ardente, fui tomado por lembranças muito boas da velha Fundação Cultural, à qual colaborei assiduamente ao longo de muitos anos, muitas vezes muito bem remunerado, outras a troco do próprio gosto da propriedade que tudo aquilo provocava, algo que propriamente nunca se desfez.
A sede administrativa da FCC agora é lá no Rebouças, numa antiga fábrica, um lugar histórico. Li dia desses que venderam o terreno pra Igreja Universal. Desgraça pouca é bobagem. Não era o caso, naquela hora.
Deixando o devaneio, voltando à real, vá lá que a realidade vale alguma coisa, andamos até onde antes funcionava a livraria, um velho casarão na parte baixa do Largo, e nada. Perguntamos a alguns funcionários em outros setores mantidos pela FCC, mais alguns passantes, nada. Ninguém conhecia a Dario Velloso.
Chegamos na velha sede da FCC, onde também funcionou a livraria em determinada época, na praça Garibaldi, mais acima, a vulga praça do “Cavalo Babão”, em torno de 13h30 de uma tarde de domingo, vejam. Um Largo lotado de turistas e gente de toda sorte e destino. Ali, demos com a imagem grotesca das fotos que ilustram o texto. Perguntamos num posto de informação ao turista, em uma entrada lateral da casa, também mantido pela Prefeitura, sobre “que fim levou a livraria?”. Resposta: “Não é mais livraria. É um espaço para leitura, com algumas atividades, etc, etc, etc.”. Perguntei: “Mas, então se eu quiser agora comprar livros e discos feitos por artistas daqui, aonde eu vou?”. O funcionário disse que não sabia.
Tá certo. O cidadão curitibano, médio ou não, que gosta de consumir cultura está sem a Pedreira, sem o Perhappiness, sem quatro dos cinco cinemas públicos de outrora, sem o Cultural do Portão, sem um monte de outras praças de arte bacanas. Agora, sem a pequena e simpática livraria que vendia coisas do Paraná.
Eu gostaria muito de saber o que os responsáveis pela política cultural da cidade fazem com nossos impostos. Porque o que eles têm na cabeça certamente é caso pra outro setor municipal, o que cuida do esgoto. Pois, vá lá que um cinema é caro, uma pedreira é cara, um Perhappiness é muito caro. Mas uma lojinha simpática não custa nada além de dois funcionários, um guardinha e meia dúzia de estagiários para ordenar todo o acervo – depois apenas um daria conta. Pior: tudo isso a que me referi (cinemas, pedreira, etc.) existia. Agora, ou não existe mais ou está fechado. Não é algo que precisaríamos inventar, mas que nos foi tirado. Que conversa é essa? Mais um pouco, eles vão remover a feirinha do Largo da Ordem, sob pretexto de que atrapalha o trânsito, ou a missa e coisa e tal. Não duvido.
Olhando a fachada do antigo prédio, pichada, deu na gente aquilo que o povo chama de “ruim”. A nossa antiga “casa de cultura” estava fechada, às 13h30 de um domingo, e a livraria virou “espaço de leitura”. Sei. Acho que isso doeu mais que o fato de a casa estar depredada por pichação.
Depois, indignados, fomos tomar uma cerveja num bar que dá vista pro local, onde encontramos a Sandra Loest, que bateu as fotos. Um amigo nosso, músico, que estava por ali, ao ouvir nossa conversa a respeito, contou: “Puxa vida, lá no Conservatório (de MPB, também da FCC) tá entupido de discos de artistas feitos pela Lei. Tá tudo entulhando lá. Não tem nem onde colocar…”.
Esqueci meus livros e lembrei de uns discos que cometi também. Em Lei de Incentivo, uma quantia é sempre doada à FCC, por lei. A ideia é que seja este material encaminhado a bibliotecas, deixado à disposição da população. Entulhado, pois bem? Muito bonito.
Enfim. Depois esqueci de novo. Vazio sem tamanho. Àquela altura a casa já soava engraçada. Rir pra não chorar. A pichação sobre as placas de mármore onde está escrito “Secretaria Municipal de Cultura” e “Fundação Cultural de Curitiba” já soava uma maquiagem de palhaço torto, ou de puta velha. Velha. Sem história. Apenas velha. Sem respeito. De tão estúpida, muito engraçada. Feito uma Geni a quem a turba atira pedras.
Dei um gole bem forte nessa cerveja vagabunda que a gente bebe aqui no Brasil. Desceu amarga. As palavras que passaram em minha cabeça não são passíveis de publicação. Mas a lembrança mais aproximada que tenho foi de uma vontade imensa de agir contra a burrice e a incompetência adotando as táticas pouco ortodoxas de uns personagens de outro livro do Anthony Burgess. Aqueles meninos simpáticos da primeira parte de Laranja Mecânica. Lembram?
Pouco depois, descubro que ao fim da rodada deste belo domingo, meu time se encaminha a passos largos para a segunda divisão. Ainda bem que a moça é bonita.
***
Flávio Jacobsen é escritor e compositor.
Ao longo do século XX, a sétima arte ganhou espaço singular na vida de toda a sociedade. Desde seus primórdios, em fins do século XIX, o cinema é em nossos dias uma das principais ferramentas de reconhecimento e valorização dos bens culturais de toda a humanidade. Daí sua força e sua importância.
Há ainda aspectos comerciais, também de muita importância, aos quais dedicarei especial atenção ao longo dos próximos artigos. Por ora, vale uma pequena introdução a respeito de um ponto que considero de suma importância para todos nós, curitibanos, natos ou não, que amamos nossa cidade. Trata-se dos espaços públicos de exibição cinematográfica.
Uma das funções do Poder Público constituído é, sem dúvida, administrar os patrimônios culturais, em suas mais variadas manifestações, de maneira distinta aos interesses meramente mercadológicos presentes nas ações similares levadas a cabo pela iniciativa privada. Garantir a todos os cidadãos o acesso à produção cultural de toda a humanidade está, naturalmente, inserida nesse contexto. No que se refere ao cinema, observamos em Curitiba uma situação peculiar, se não triste e contrária a esse princípio.
Em 1980, a capital paranaense atingia um milhão de habitantes. Se comparada aos dias atuais, uma cidade com uma demanda social bem mais modesta, já que hoje somos quase dois milhões. Diante disso, nada mais natural do que a ampliação, pelo Poder Público, de programas de acesso à cultura. Entretanto, no que diz respeito a exibições cinematográficas, fomos ladeira abaixo nos últimos anos.
Em 1975, sob o governo de Saul Raiz, a capital paranaense ganharia a Cinemateca de Curitiba, numa ação de grande importância da Prefeitura Municipal. Já em 1981, agora em seu segundo mandato como prefeito, Jaime Lerner inauguraria o Cine Groff, nas dependências da Galeria Schaffer, em plena Rua XV. Em 1985, duas novas salas públicas são disponibilizadas à população: o Cine Luz, anexo ao Citibank, na Praça Santos Andrade, e o Cine Ritz, também na Rua XV, quase esquina com a Rua Dr. Muricy. Por último, em 1988, nasce a primeira sala em um bairro da cidade: o Cine Guarani, anexo ao então Centro Cultural do Portão, abria suas portas.
Ainda que os mais críticos possam crer, e com razão, que essa oferta estava aquém do que poderia se esperar de uma cidade da importância de Curitiba, temos que admitir que, para os padrões brasileiros, a realidade da capital se mostrava privilegiada.
Mas como “nem tudo são flores no Paiol de Pólvora[1]”, 36 anos após a inauguração da Cinemateca e 23 anos depois da do Cine Guarani, os ventos sopraram, e como muita força, em sentido contrário. Atualmente, há apenas uma sala pública de cinema em atividade em nossa capital: a sala Groff, da Cinemateca de Curitiba. Além da promessa de outro Centro Cultural na Rua Riachuelo, centro de Curitiba, com salas de cinema, e da interminável reforma do agora Museu Metropolitano de Arte (Muma), antigo Centro Cultural do Portão, onde está prevista a reinauguração do Cine Guarani, temos um quinto das salas públicas que dispúnhamos nos anos 90. Esses dados devem falar por si. Caso contrário, continuamos no próximo texto.
[1] Livre adaptação dos versos de Vinicius de Moraes.