Por Bernardo Pilotto*
Máquinas de choque, gritaria, votação às escondidas no porão da ALEP, trancamento da casa, corte da iluminação… Esses, entre outros, foram os procedimentos usados pelo governo Beto Richa e sua maioria parlamentar para aprovar, na última segunda-feira (05/12) o PL 915/11, que autoriza a gestão dos serviços públicos por Organizações Sociais (OS’s).
A truculência não foi ao acaso. O projeto é um simbolo do atual modelo hegemônico de governo, em que os mais diversos serviços públicos estão sendo terceirizados ou privatizados diretamente, seja através das parcerias público-privadas, fundações estatais de direito privado, empresa brasileira de serviços hospitalares e por OS’s. Esses modelos terceirizantes trazem grande benefício ao setor privado, que recebe grandes quantias (através de entidades laranjas classificadas como OS’s) de dinheiro público para gerir os serviços públicos, sem precisar fazer licitação e concursos. Mas esse dinheiro volta aos governantes (e não ao Estado), através de polpudos financiamentos de campanha.
Apesar de hegemônico do ponto de vista governamental, esse modelo, especialmente aquele que foi aprovado pelos deputados paranaenses (gestão por Organizações Sociais), vem sendo bastante questionado, tanto por órgãos do próprio Estado, como Tribunais de Contas e Ministérios Públicos, como pelos movimentos sociais, sindicatos, entidades estudantis, etc. Recentemente, o prefeito de Campinas (Dr. Hélio, do PDT) sofreu impeachment por corrupção, num processo que começou a partir da crise da saúde e do modelo de OS’s. Em Londrina, há diversos casos de corrupção sendo investigados a partir da gestão da área de saúde por modelo semelhante e a população vem se organizando pra rejeitar novas Organizações Sociais.

Beto Richa, o 'dono' da Assembleia do Paraná, de costas para os movimentos sociais (Charge de Symon Taylor)
Ação e reação
A ocupação da ALEP (Assembleia Legislativa do Estado do Paraná) foi uma reação dos movimentos sociais à esta truculência. Os movimentos vinham ocupando as galerias da casa desde a semana passada, quando o PL 915/11 começou a ser “debatido” pelos deputados estaduais. Apesar da pressão popular, a maioria governista na casa, através do líder do governo Ademar Traiano (PSDB), usou de manobras burocráticas para acelerar a votação, requerendo que não houvesse debate em Comissões e que tudo fosse feito em plenário.
Na segunda-feira, as galerias da casa estavam novamente lotadas. Estavam lá um amplo leque de movimentos, como MST, CSP-Conlutas, CUT, CTB, SindSaúde/PR, Senge, gestão eleita do Sinditest/PR, UPE, UPES, APP-Sindicato, entre outros. Mesmo assim, o presidente da casa, Valdir Rossoni (PSDB), aquele que defendia a “ampla transparência da ALEP”, encaminhou a votação rapidamente. Em sua fala, o deputado Stephanes Junior (PSDB), optou por atacar os presentes, maltratando os visitantes da Casa, o que tensionou o ambiente. Diante disso, só sobrou aos manifestantes a opção de ocupar o plenário, parando “na marra” a votação.
No momento da ocupação, alguns deputados, como o Pr. Edson Praczyk (PR), chegaram a tentar agredir alguns manifestantes, mas resolveram recuar. A partir da ocupação, a sessão foi suspensa por 2 horas e, após este período, suspensa mais uma vez, pelo mesmo período.
Diante do impasse, os manifestantes formaram uma comissão que buscou uma negociação com os deputados Enio Verri (PT), Ademar Traiano (PSDB) e Plauto Miró (DEM). A comissão de deputados fez uma proposta que apenas prorrogava por um dia a votação. Avaliada em uma assembleia, a proposta foi consensualmente rejeitada. Nós ocupantes voltamos para a sala da comissão de deputados e informarmamos a decisão.
Foi então dado o golpe fatal: os lideres de bancada, a partir de proposta do líder governista, optaram por fazer a sessão em outro auditório, fazendo a votação às portas fechadas, sem acesso inclusive da imprensa corporativa. Além disso, ameaçaram a nós ocupantes com uma possível e provável entrada da PM, que já cercava o prédio neste momento.
Neste momento, só restou aos manifestantes a saída do prédio. Lá fora, fomos recebidos por cerca de 100 pessoas, que apoiavam o protesto do lado de fora. A primeira batalha contra as OS’s foi perdida, mas a guerra contra a privatização vai continuar, agora com mais apoio da opinião pública, trabalhadores e da população usuária, que viram, a partir da truculência do governo, de que lado este governo está e para que vão servir as OS’s.
Em tempo… Apesar das declarações de Enio Verri, líder da bancada do PT na ALEP, que disse ser contrário a ocupação do plenário, outros deputados apoiaram nosso movimento, como os deputados Tadeu Veneri e Professor Lemos.
*Bernardo Pilotto é trabalhador do HC/UFPR, militante do Fórum Popular de Saúde-PR e da Coordenação do Setorial de Saúde do PSOL.
Serviço público municipal é uma máquina eleitoreira que prioriza interesses pessoais em detrimento do servidor da prefeitura. Baixos salários contrastam com política tecnocrata de grandes obras, terceirização de serviços e beneficiamento de empresários.

Manifestação dos cirurgiões-dentistas da Prefeitura de Curitiba, em setembro deste ano (Foto: André Rodrigues )
A cultura política brasileira, moldada pela herança patrimonialista colonial implica em um enorme prejuízo social. Os anos de populismo no meio urbano e de coronelismo no meio rural tornaram comum pensar o serviço público como uma propriedade alheia ao povo. Curitiba não está distante desta triste realidade. A capital paranaense foi projetada por gestões que cultivaram a imagem de “cidade modelo”, camuflando as intenções capitalistas[1].
Curitiba priorizou nestes últimos 40 anos o investimento em obras que consideraram exclusivamente a parte estrutural, ainda que muito desta estrutura esteja obsoleta ou ineficiente. A maior parte dos bairros da capital oferece hoje uma unidade de saúde, uma escola, uma creche ou um ponto de ônibus. Mas pensar a cidade apenas do ponto de vista da engenharia urbana, conforme o padrão tecnocrático empregado a partir dos anos 1960, esconde os verdadeiros problemas que aprofundam o grau de diferenças sociais em Curitiba. Refiro-me ao descaso com relação ao serviço público, mais especificamente aquele executado pelos servidores municipais.
Descompasso nos investimentos
Recentemente a prefeitura apresentou sua proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Técnicos da administração mostraram onde deve ser investido o montante de R$ 5,1 bilhões, estimados para o ano que vem. Pavimentação, construção de creches e academias ao ar livre. Esta é a prioridade de quem vê a população como números nas urnas da próxima eleição. Não é à toa que, deste montante, estão previstos gastos com publicidade na casa dos R$ 25 milhões.
Os mais de 33 mil servidores municipais de Curitiba convivem hoje com um dos menores salários de toda a região metropolitana, perdendo para cidades muito menores como Araucária, São José dos Pinhais, Pinhais e Campo Largo. O mesmo pode ser constatado no comparativo com as capitais das regiões Sul e Sudeste.
As gestões mais recentes que se sucederam na prefeitura de Curitiba, influenciadas por uma política de Estado mínimo, sobretudo nas gestões de Jaime Lerner, Cássio Taniguchi, Beto Richa e Luciano Ducci, trataram de evitar o aumento do quadro de servidores e arrocharam salários.
A lógica destas administrações procura congelar os valores gastos na folha de pagamento, diante do real crescimento da arrecadação, com a intenção de criar um caixa capaz de potencializar a realização de grandes e visíveis obras[2]. A Linha Verde é um exemplo. Um dos maiores contrastes atuais é a relação entre os salários pagos aos servidores e a arrecadação do município. A prefeitura paga mal, mas tem o quarto maior orçamento do Brasil.
Para camuflar os salários baixos, os últimos prefeitos têm ampliado as políticas de remuneração variável. Ou seja, pagam-se gratificações que correspondem a praticamente metade de todo o salário, condicionando-as às avaliações por desempenho a cargo das chefias.
O servidor que não “anda na linha”, isto é, que realiza greves ou que não “obedece” a chefia, é punido com perda na pontuação da avaliação ou com a perda das gratificações. Hoje, um dos maiores problemas da categoria nos locais de trabalho é a prática do assédio moral, difundido como prática entre os diferentes graus hierárquicos da administração.
Trabalho precarizado
Para quem já anda com o vencimento comprometido com dívidas em bancos, contraídas devido aos baixos salários, perder a gratificação significa entrar no cheque especial, cortar gastos no orçamento familiar ou ter que sujeitar-se a humilhações por meio de empréstimo de dinheiro de amigos ou familiares.
O efeito desta política também reflete diretamente sobre a saúde destes profissionais, incentivados a aumentar a produtividade e a competitividade com os colegas, quebrando a solidariedade no trabalho, o que afeta diretamente o rendimento do serviço prestado. Receosos, os servidores são pressionados a não faltar ao trabalho sob nenhuma circunstância. Licenças para tratamento de saúde, dores no corpo, lesões em ossos, músculos e nervos e, principalmente, problemas psicológicos estão entre os principais problemas enfrentados pelos servidores atualmente.
Dados da Gestão Unificada de Recursos Humanos, da Secretaria de Recursos Humanos (GURHU/RHSO/SMRH), apontam que os transtornos mentais são responsáveis por 29,9% do absenteísmo (falta) no trabalho e 17,1% por doenças osteomusculares, em 2008. No mesmo ano foram registrados 30.785 afastamentos de servidores. O que representa quase 90% do total de trabalhadores da prefeitura.
Atormentados pelas dívidas, pela competitividade, por problemas de saúde e pela discreta pressão de chefias, os servidores são expostos à intensificação do trabalho sob o risco de não realizar o atendimento com a qualidade necessária. Para o prefeito, fica fácil gerir as críticas. Se o atendimento é ruim, a culpa é do servidor; se o atendimento é bom, o bônus é do prefeito. E, neste sentido, é possível dizer que a prefeitura é eficiente.
O marketing é hoje uma dos grandes trunfos da administração, reconhecido por qualquer bom profissional da área. Beto Richa, por exemplo, se vangloria hoje da imagem de administrador moderno, eficiente, otimizador, ou seja lá qual for o termo da moda no meio empresarial. De qualquer maneira, esta imagem revela as intenções de um grupo que procura se perpetuar no poder para manter seus interesses pessoais, utilizando-se das benesses produzidas por quem realmente trabalha pelo povo.
A crise da gestão do trabalho na prefeitura revela-se em momentos de greves e mobilizações de servidores, que têm se tornado cada vez mais constantes, devido ao descontentamento da categoria para com a atual situação.
Quem imaginaria uma greve de guardas municipais ou de cirurgiões-dentistas? Em outros momentos, é possível ver a população revoltada em unidades de saúde, em CMEI’s ou com a segurança pública. Estes fatos também são evidências de que há um desequilíbrio.
Terceirização
Este modelo inclui ainda a terceirização de serviços, que beneficia empresários ao invés de valorizar o trabalhador. Só na saúde, a prefeitura gastou R$ 8,2 milhões terceirizando serviços nesta área em contratos com hospitais particulares para atendimento em nos Centros Municipais de Urgência e Emergência (CMUM’s) em 2010.
Entre os anos de 2010 e 2011, a prefeitura repassou para as empreiteiras mais de R$ 100 milhões. Boa parte das empresas que venceram os processos licitatórios foram doadoras da campanha ao governo de Beto Richa, comprovando que a terceirização é um dos mecanismos mais comuns para a troca de favores entre políticos e empresários.
Assim, não é difícil prever que a obra grandiosa cumpre duas funções com um único objetivo: chama a atenção do eleitorado e garante financiamento para a campanha, garantindo a continuidade de um grupo no poder com interesses particulares.
Enquanto o serviço público continuar sendo gerido por quem pensa primordialmente em votos e no financiamento de campanhas eleitorais, os servidores da Prefeitura de Curitiba continuarão reféns da desvalorização profissional. Não se trata apenas de aumento salarial. É uma questão de se pensar o trabalho e sobre o conceito de gestão.
Ao contrário dos autointitulados gestores modernos e eficientes, a melhoria no serviço público precisa ser pensada como coisa pública, de um ponto de vista social, incluindo aqueles que executam o serviço. Infelizmente, nos últimos anos, a prioridade tem sido outra. As eleições e os interesses privados continuam a orientar a política municipal.

Propaganda da Prefeitura de Curitiba publicada em jornal de língua inglesa, de baixa circulação, da capital. Para quem ver?
O poder público tem obrigação legal de divulgar seus atos. Faz parte da transparência com as ações de Estado. Por vezes, esta obrigação é formal, com a publicação de editais de licitação. Em outras, a comunicação se torna ação de Estado em campanhas de esclarecimentos público, como no caso das campanhas de vacinação.
Jornais devem cobrir as ações de Estado. Faz parte do seu papel democrático: vigiar o poder. O jornalismo, ao longo do tempo, se legitimou perante a sociedade pelo seu profundo entrelaçamento com a democracia.
Esse é um mundo ideal, mas não existe. Na realpolitik ninguém na Prefeitura de Curitiba nos últimos mandatos deixou de usar da verba publicitária para injetar recursos nos jornais com a perspectiva de comprar a sua postura editorial. Em outras palavras, os anúncios visam não apenas realizar uma ação de comunicação, mas também uma ação política diminuindo o ímpeto das redações para fazer denúncias, descobrir mazelas, vigiar o poder público. Azar da democracia; azar do cidadão.
A verba publicitária é utilizada como um poder corruptor. E é impossível identificar o ato como desvio de recursos ou como ilegal, posto que investir em compra de espaço nos jornais, em compra de mídia, faz parte das atividades usuais da prefeitura. Legal, mas a-ético, imoral. O mercado nunca ofereceu critérios claros para definir quanto valem os anúncios. Por outro lado, a decisão de anunciar em um veículo e não em outro não se baseia, muitas vezes, em busca de eficácia da ação de comunicação. Ou seja, os valores são aleatórios, assim como, muitas vezes, a escolha dos veículos. A falta de critérios técnicos abre a porta para o uso ilegítimo e imoral dos recursos como instrumento para inibir a autonomia editorial dos veículos e dos jornalistas que neles trabalham. Esta estratégia se repete, vergonhosamente, há anos.
Uma Curitiba que se queira moderna e progressista não pode incidir nestas práticas mais uma vez. O poder público tem o dever de fazer estudos técnicos e adotar critérios claros de alocação da verba publicitária nos jornais, com já acontece no Governo Federal. Ou seja, o Estado tem dever moral de usar mídia técnica para alocar recursos publicitários. E uma vez destinada a verba para um veículo, mediante contrato, o repasse não pode ser suspenso ou diminuído exceto por razões de ordem técnica, como queda acentuada nas tiragens ou audiência.
O Estado tem o dever de divulgar seus atos, mas também de realizar estudos que justifiquem os investimentos. O dinheiro é público. Seu uso justo e adequado é de interesse da população, da mesma forma que a preservação da autonomia dos veículos de comunicação e das redações dos jornais perante o poder público.
P.S.: Este é o primeiro de uma série de cinco textos sobre a mídia na cidade de Curitiba. O material será publicado sempre às sextas-ferias.
Lembro-me das aulas na Santa Casa e dos plantões no Cajuru. Corria a segunda metade da década de 1970. No ambulatório da Santa Casa e nos plantões do Cajuru, recebíamos os pacientes e vinha a pergunta: particular ou tem Inamps. Ou já era INPS? Nem lembro mais. Caso não fosse particular e nem tivesse a Carteira registrada (Previdência), escrevíamos “N/C”, o que significava “não contribuinte”.
Estes “não contribuintes”, dentro dos hospitais (Santa Casa e Cajuru), eram chamados de indigentes. Por mais trabalhador ou trabalhadora que fossem, não eram cidadãos ou cidadãs. Eram indigentes.
Muitos de nós, alguns ainda estudantes, não aceitávamos esta situação. Como que homens e mulheres que trabalham ou trabalharam a vida toda, que contribuíram pagando seus impostos, são indigentes?
Profissionais da saúde, estudantes e lideranças de alguns sindicatos começamos a lutar por um sistema de saúde que atendesse a todos e a todas, sem discriminação.

Fila diante de uma unidade básica de saúde na periferia de Curitiba, ainda de madrugada (Foto: Arquivo PT)
Começamos a lutar por uma reforma, que veio a se chamar “Reforma Sanitária”. Foi através desta luta que conquistamos o Sistema Único de Saúde (SUS).
Conquistamos o disposto no artigo 196 da Constituição: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.
Há outros artigos na Constituição e leis estabelecendo os direitos à saúde, mas creio que o artigo 196 é suficiente. Nele, estão garantidos os direitos de homens e mulheres à saúde.
Apesar disso, no Brasil e em Curitiba, todos os dias morrem os Alceus, as Marias, os Josés…
Sobre a morte do Alceu, Mario Lobato reproduziu aqui no blog CuritibaQuer.com uma nota publicada no último dia 17 de agosto pelo jornal “Gazeta do Povo”:
“[...]Mas o mais triste é saber que sua morte poderia ter sido evitada se a saúde pública brasileira fosse mais eficiente. Durante três dias Alceu sentiu dor no braço esquerdo. Levado pelo irmão a um posto de saúde da prefeitura, foi medicado, mas o médico que o atendeu pediu uma série de exames, que foram marcados pelo SUS para janeiro de 2012. Alceu não tinha plano de saúde. Só de viver mais alguns anos.”
Uma observação sobre o texto acima: os exames solicitados foram marcados para janeiro de 2012.
Como chama a atenção o Mario, “o drama do Alceu não é fato isolado. Na Curitiba “da família” (‘das famiglias’?) esta tem sido a regra. A propaganda oficial ‘mostra’ a excelência de um sistema de saúde modelo… mas tem que caprichar no ‘photoshop’!”.
E como tem que caprichar.
Comentando o artigo do Mario Lobato e a morte do Alceu, afirma o Dr. Angelo Col:
“Acho que também temos que repensar que tipo de homem queremos: ganancioso? egoísta? desonesto? corrupto? Se forem estes os tipos, os Alceus continuarão. Mas se for o inverso: humano, solidário, honesto, correto. Então, acho que os Alceus terão melhor sorte. E os outros também: terão educação digna, segurança e sistema de transporte eficiente e humano”.
Concordo, Dr. Angelo.
A Curitiba que a gente quer tem que debater qual é a melhor maneira de construirmos o homem e mulher “humano(a), solidário(a), honesto(a) e correto(a)”, ou seja, o cidadão e a cidadã com direitos e deveres.
Mas principalmente direitos, que hoje estão na lei e não são gozados e não serão plenamente gozados enquanto a política não for debatida. Enquanto não for construída uma Curitiba cidadã e politizada, continuaremos perdendo os Alceus, as Marias, os Joões…
No último dia 23 de setembro, pouco mais de um mês da morte do Alceu, li a seguinte notícia:
“Um paciente de 54 anos, que esperou durante cinco dias por uma vaga em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em algum hospital de Curitiba, morreu na tarde de quinta-feira (22) [...] O homem tinha hepatite, apresentava quadro de cirrose, e ficou cinco dias internado em um Centro de Urgências Médicas da prefeitura, no bairro Cajuru.[...]”

Pacientes esperam por atendimento na unidade de saúde 24 horas do Boa Vista, em Curitiba (Foto: Anderson Tozato/Paraná-Online)
Um serviço eficiente de atendimento a saúde não pode marcar exames e consultas especializadas para daqui a dois meses ou até dois anos, como ocorre em Curitiba. Não pode um cidadão morrer na fila, seja da UTI ou do ambulatório.
A ineficiência da administração e o descaso com o cidadão e a cidadã estão fazendo retroceder o SUS ao velho “N/C”, pois só tem direito ao atendimento aqui no município quem paga algum seguro de saúde ou paga no caixa pelo atendimento.
Até quando vamos continuar perdendo o Alceu, o João, a Maria, ou tratando-os como indigentes? É isso o que Curitiba quer?
A UFPR fará cem anos em dezembro do ano que vem. Entretanto, apresenta sintomas agudos de falta de transparência por parte de alguns de seus dirigentes.
Foi eleita símbolo da cidade de Curitiba e representa muito para todos os paranaenses. Entretanto, alguns de seus dirigentes não estão honrando tanta deferência a esta instituição quase centenária.
A moeda de troca mais utilizada hoje na UFPR são vagas e cargos com CD [cargos de direção]. Alguns dirigentes julgam-se donos do bem público e são exemplo de improbidade administrativa a toda prova, fazendo dos setores seus quintais, mandando os docentes calar a boca em plenária, cimentando a porta do Centro Acadêmico de Biologia, entre outras cositas.
Seus instrumentos mais utilizados são a falta de ética, a falta de transparência, os conchavos obscuros, as mentiras inescrupulosas, as coações com sindicâncias para punir adversários políticos, longe do bom senso, do diálogo e do respeito a opiniões adversas. Aliás, essas qualidades passam longe desses diretores inescrupulosos que só querem o poder a todo custo. Alguns docentes, por terem opiniões diferentes, estão respondendo a até oito sindicâncias, processos administrativos e denúncias na Comissão de Ética.
Enquanto as provas apresentadas de improbidade administrativa, como por exemplo, o caso do Minter-Unipar [mestrado interinstitucional que cobrava taxas de até R$ 27 mil por aluno, declarado ilegal pelo TCU], além de denúncias na Comissão de Ética desses atos ditatoriais ficaram sem resposta, pois a administração central da UFPR faz ouvido de mercador e não toma nenhuma atitude para coibir esse tipo de pseudo-administrador, quem sabe pensando que terá o apoio deles a uma futura candidatura à reeleição para a Reitoria.
Em uma vida de militância em prol da busca do Estado de Direito democrático, jamais me deparei com uma situação como esta na UFPR. Curitiba e a UFPR não merecem administradores que não respeitem sua história, seus valorosos habitantes e sua gente honesta.
Nem na Câmara Municipal, nem na UFPR. Fora Derosso e fora diretores de setor que são ditadores, eles e todos de seu séquito!
Os discursos são de democracia, de transparência, de discussão acadêmica, porém as ações são desenvolvidas nos subterrâneos mais obscuros. Podemos citar mais um exemplo: a tentativa da criação de um novo departamento no Setor de Ciências Biológicas da UFPR, intitulado Departamento de Motricidade e Funcionalidade Humana, na contramão da educação física mundial, baseada no exemplo de Portugal, que, infelizmente, não é referência para ninguém na educação física!
Trata-se de um grupo de oportunistas da UFPR, pensando em criar factóides para tentar cacifar-se a uma futura eleição para a Reitoria e que não respeitou os professores, os alunos e os técnicos do Departamento de Educação Física da UFPR. Só pensaram em benefício próprio, sem qualquer ética profissional, sem escrúpulos, sem democracia e sem a mínima transparência.
• Sem ética porque burla a legislação vigente atropelando seus pares com as mais esdrúxulas atitudes de subgrupos, não respeitando as opiniões divergentes (novo departamento);
• Sem escrúpulos porque cobraram o curso de mestrado que segundo a legislação deveria ser gratuito (Minter);
• Sem democracia porque não respeitam seus pares no DEF [Departamento de Educação Física] para tomar decisões;
• Sem transparência porque realizam ações sem consultar a comunidade acadêmica.
Essas pessoas querem se autodenominar educadores, quando são parecidos com o Derosso, com os ex-ministros dos Transportes, do Turismo, etc.
Difícil também é entender o que houve depois da auditoria interna, promovida pela Audin, que encontrou diversas irregularidades na Pós-Graduação do Departamento de Educação Física e tudo acabou em pizza; mas não aquela pizza que todos gostamos, a pizza da impunidade.
No caso do Minter, apesar de todas as reportagens do jornal Gazeta do Povo, que comprovou as irregularidades e o desrespeito com o patrimônio público, utilizado para ganhos pessoais, qual foi o resultado? Muita gente pressionando o ministro do TCU, a Polícia Federal e o jornalista que escreveu a matéria, para tentar acabar novamente em pizza!
Onde anda a administração central da UFPR? Omissa, omissa, omissa e omissa. Por que será?
A UFPR? Vai bem obrigado, vai fazer cem anos de existência, foi uma das primeiras universidades do Brasil, continua sendo o símbolo de Curitiba!
Entretanto, seus dirigentes deveriam pensar mais em torná-la referência como instituição de ensino, em um pais cuja universidade mais bem colocada, no ranking das melhores universidades do mundo, apareceu em um significativo 165ª lugar (USP).
E não usá-la para escaladas ao poder, mesmo porque o poder é passageiro, e os senhores não serão reeleitos com essa postura indigna, que envergonha Curitiba e seus valentes habitantes, porque o mundo atual repudia ditadores, corruptos e mal administradores.
Conteúdo relacionado:
Taxa em mestrado da UFPR é ilegal, diz TCU (23.ago.2011)
Cursos da UFPR são investigados (26.mai.2011)
Por Flávio Jacobsen*
Domingo, feirinha em tarde de sol e céu azul, depois de pastel, água de coco, um livro do Anthony Burgess comprado em sebo. Eu e a moça bonita demos de não ter o que fazer. Daí lembrei que umas pessoas andaram me escrevendo pedindo livros meus.
Publiquei uns títulos de poesia há algum tempo. Nada de mais. Também não tenho um exemplar que seja. Doei boa quantidade de exemplares de um desses livros pra Fundação Cultural da cidade. Faz mais de dez anos, certeza. Lembrei de onde eles poderiam estar, e pensei em passar lá conferir, pra eu comunicar a essas pessoas que me escreveram. Era um setor que funcionava todos os dias da semana, um espaço dentro do Largo da Ordem, uma livraria/loja que vendia livros e discos produzidos no Paraná, entre outros badulaques. Uma grande maioria desse material era realizada através da Lei de Incentivo à Cultura, em seus mais diversos formatos. Era a livraria Dario Velloso, mantida pela Fundação Cultural de Curitiba, onde se podia comprar boa parte da arte feita aqui. Um espaço que considerei absolutamente sensacional à época. Em tempo: este livro meu que eu procurava, de 1997, foi lançado por uma editora underground, não foi feito por lei de incentivo alguma. Tudo bem.
Debaixo do sol ardente, fui tomado por lembranças muito boas da velha Fundação Cultural, à qual colaborei assiduamente ao longo de muitos anos, muitas vezes muito bem remunerado, outras a troco do próprio gosto da propriedade que tudo aquilo provocava, algo que propriamente nunca se desfez.
A sede administrativa da FCC agora é lá no Rebouças, numa antiga fábrica, um lugar histórico. Li dia desses que venderam o terreno pra Igreja Universal. Desgraça pouca é bobagem. Não era o caso, naquela hora.
Deixando o devaneio, voltando à real, vá lá que a realidade vale alguma coisa, andamos até onde antes funcionava a livraria, um velho casarão na parte baixa do Largo, e nada. Perguntamos a alguns funcionários em outros setores mantidos pela FCC, mais alguns passantes, nada. Ninguém conhecia a Dario Velloso.
Chegamos na velha sede da FCC, onde também funcionou a livraria em determinada época, na praça Garibaldi, mais acima, a vulga praça do “Cavalo Babão”, em torno de 13h30 de uma tarde de domingo, vejam. Um Largo lotado de turistas e gente de toda sorte e destino. Ali, demos com a imagem grotesca das fotos que ilustram o texto. Perguntamos num posto de informação ao turista, em uma entrada lateral da casa, também mantido pela Prefeitura, sobre “que fim levou a livraria?”. Resposta: “Não é mais livraria. É um espaço para leitura, com algumas atividades, etc, etc, etc.”. Perguntei: “Mas, então se eu quiser agora comprar livros e discos feitos por artistas daqui, aonde eu vou?”. O funcionário disse que não sabia.
Tá certo. O cidadão curitibano, médio ou não, que gosta de consumir cultura está sem a Pedreira, sem o Perhappiness, sem quatro dos cinco cinemas públicos de outrora, sem o Cultural do Portão, sem um monte de outras praças de arte bacanas. Agora, sem a pequena e simpática livraria que vendia coisas do Paraná.
Eu gostaria muito de saber o que os responsáveis pela política cultural da cidade fazem com nossos impostos. Porque o que eles têm na cabeça certamente é caso pra outro setor municipal, o que cuida do esgoto. Pois, vá lá que um cinema é caro, uma pedreira é cara, um Perhappiness é muito caro. Mas uma lojinha simpática não custa nada além de dois funcionários, um guardinha e meia dúzia de estagiários para ordenar todo o acervo – depois apenas um daria conta. Pior: tudo isso a que me referi (cinemas, pedreira, etc.) existia. Agora, ou não existe mais ou está fechado. Não é algo que precisaríamos inventar, mas que nos foi tirado. Que conversa é essa? Mais um pouco, eles vão remover a feirinha do Largo da Ordem, sob pretexto de que atrapalha o trânsito, ou a missa e coisa e tal. Não duvido.
Olhando a fachada do antigo prédio, pichada, deu na gente aquilo que o povo chama de “ruim”. A nossa antiga “casa de cultura” estava fechada, às 13h30 de um domingo, e a livraria virou “espaço de leitura”. Sei. Acho que isso doeu mais que o fato de a casa estar depredada por pichação.
Depois, indignados, fomos tomar uma cerveja num bar que dá vista pro local, onde encontramos a Sandra Loest, que bateu as fotos. Um amigo nosso, músico, que estava por ali, ao ouvir nossa conversa a respeito, contou: “Puxa vida, lá no Conservatório (de MPB, também da FCC) tá entupido de discos de artistas feitos pela Lei. Tá tudo entulhando lá. Não tem nem onde colocar…”.
Esqueci meus livros e lembrei de uns discos que cometi também. Em Lei de Incentivo, uma quantia é sempre doada à FCC, por lei. A ideia é que seja este material encaminhado a bibliotecas, deixado à disposição da população. Entulhado, pois bem? Muito bonito.
Enfim. Depois esqueci de novo. Vazio sem tamanho. Àquela altura a casa já soava engraçada. Rir pra não chorar. A pichação sobre as placas de mármore onde está escrito “Secretaria Municipal de Cultura” e “Fundação Cultural de Curitiba” já soava uma maquiagem de palhaço torto, ou de puta velha. Velha. Sem história. Apenas velha. Sem respeito. De tão estúpida, muito engraçada. Feito uma Geni a quem a turba atira pedras.
Dei um gole bem forte nessa cerveja vagabunda que a gente bebe aqui no Brasil. Desceu amarga. As palavras que passaram em minha cabeça não são passíveis de publicação. Mas a lembrança mais aproximada que tenho foi de uma vontade imensa de agir contra a burrice e a incompetência adotando as táticas pouco ortodoxas de uns personagens de outro livro do Anthony Burgess. Aqueles meninos simpáticos da primeira parte de Laranja Mecânica. Lembram?
Pouco depois, descubro que ao fim da rodada deste belo domingo, meu time se encaminha a passos largos para a segunda divisão. Ainda bem que a moça é bonita.
***
Flávio Jacobsen é escritor e compositor.
Ao longo do século XX, a sétima arte ganhou espaço singular na vida de toda a sociedade. Desde seus primórdios, em fins do século XIX, o cinema é em nossos dias uma das principais ferramentas de reconhecimento e valorização dos bens culturais de toda a humanidade. Daí sua força e sua importância.
Há ainda aspectos comerciais, também de muita importância, aos quais dedicarei especial atenção ao longo dos próximos artigos. Por ora, vale uma pequena introdução a respeito de um ponto que considero de suma importância para todos nós, curitibanos, natos ou não, que amamos nossa cidade. Trata-se dos espaços públicos de exibição cinematográfica.
Uma das funções do Poder Público constituído é, sem dúvida, administrar os patrimônios culturais, em suas mais variadas manifestações, de maneira distinta aos interesses meramente mercadológicos presentes nas ações similares levadas a cabo pela iniciativa privada. Garantir a todos os cidadãos o acesso à produção cultural de toda a humanidade está, naturalmente, inserida nesse contexto. No que se refere ao cinema, observamos em Curitiba uma situação peculiar, se não triste e contrária a esse princípio.
Em 1980, a capital paranaense atingia um milhão de habitantes. Se comparada aos dias atuais, uma cidade com uma demanda social bem mais modesta, já que hoje somos quase dois milhões. Diante disso, nada mais natural do que a ampliação, pelo Poder Público, de programas de acesso à cultura. Entretanto, no que diz respeito a exibições cinematográficas, fomos ladeira abaixo nos últimos anos.
Em 1975, sob o governo de Saul Raiz, a capital paranaense ganharia a Cinemateca de Curitiba, numa ação de grande importância da Prefeitura Municipal. Já em 1981, agora em seu segundo mandato como prefeito, Jaime Lerner inauguraria o Cine Groff, nas dependências da Galeria Schaffer, em plena Rua XV. Em 1985, duas novas salas públicas são disponibilizadas à população: o Cine Luz, anexo ao Citibank, na Praça Santos Andrade, e o Cine Ritz, também na Rua XV, quase esquina com a Rua Dr. Muricy. Por último, em 1988, nasce a primeira sala em um bairro da cidade: o Cine Guarani, anexo ao então Centro Cultural do Portão, abria suas portas.
Ainda que os mais críticos possam crer, e com razão, que essa oferta estava aquém do que poderia se esperar de uma cidade da importância de Curitiba, temos que admitir que, para os padrões brasileiros, a realidade da capital se mostrava privilegiada.
Mas como “nem tudo são flores no Paiol de Pólvora[1]”, 36 anos após a inauguração da Cinemateca e 23 anos depois da do Cine Guarani, os ventos sopraram, e como muita força, em sentido contrário. Atualmente, há apenas uma sala pública de cinema em atividade em nossa capital: a sala Groff, da Cinemateca de Curitiba. Além da promessa de outro Centro Cultural na Rua Riachuelo, centro de Curitiba, com salas de cinema, e da interminável reforma do agora Museu Metropolitano de Arte (Muma), antigo Centro Cultural do Portão, onde está prevista a reinauguração do Cine Guarani, temos um quinto das salas públicas que dispúnhamos nos anos 90. Esses dados devem falar por si. Caso contrário, continuamos no próximo texto.
[1] Livre adaptação dos versos de Vinicius de Moraes.
O século XXI apresentou inúmeras revoluções tecnológicas, entre elas as redes sociais, para as quais os “mass media” precisou reciclar seus conceitos mais enraizados e atualizá-los para sobreviver. Enfim, estamos na era da informação eletrônica, do Facebook, do Twitter e dos I Pad’s.
Entretanto, o que não muda mesmo no Brasil é a impunidade, a corrupção e os péssimos políticos que não representam a população e sim os espúrios interesses econômicos.
No esporte, que foi considerado o fenômeno social do século XX, a situação não é nada diferente; os principais periódicos do mundo retratam a miserabilidade humana dos dirigentes que utilizam o fenômeno do esporte para satisfazer os interesses econômicos e de poder seus e de seus patrocinadores.
Somente para ilustrarmos o potencial do mercado esportivo, vamos ver um exemplo americano: nos EUA o mercado de calçados esportivos mobiliza US$ 6,4 bilhões de dólares, correspondendo a um total de 381 milhões de pares. As vendas de calçados para esportes têm ganhos anuais de dois dígitos desde os anos 80 (Strategia, 2011).
Betran (2011), renomado pesquisador espanhol, afirma que o esporte, e essencialmente o futebol, é o único fenômeno que mobiliza as emoções humanas de segunda a sábado (de segunda a quarta discutindo o resultado do futebol de domingo e de quinta a sábado especulando sobre o jogo do próximo domingo).
O exemplo do mercado de calçados (vende bilhões de dólares), com os outros bilhões que advém do marketing esportivo mundial, nos servem para perceber as exacerbadas quantias que movem o esporte e o prestígio advindo da organização dos megaeventos esportivos. Aclaram as razões de tanta corrupção e de negociatas infindas de federações, comitês olímpicos e outras instituições “donas” dos esportes, com dirigentes ditadores que se perpetuam no cargo por décadas (FIFA, CBF, COB, COI – para citar alguns exemplos).
A Deloitte (2011) corrobora com as afirmações acima:
Sin embargo, estas cifras son sólo la punta del iceberg del marketing deportivo. Las razones por las cuales los países y las ciudades invierten estas enormes cifras en eventos cuyo desarrollo no pasa de los 30 días, son variadas. De acuerdo con el estudio “How major sporting events can drive positive change for host communities and economies” (Cómo pueden los grandes acontecimientos deportivos generar cambios positivos en las comunidades y las economías), de la compañía de auditoría Deloitte, eventos deportivos y de entretenimiento, como los Juegos Olímpicos y Paralímpicos, la Copa del Mundo de la Fifa, la Fórmula Uno, el Tour de Francia o la Expo Mundial, se han convertido en programas de máxima prioridad para losgobiernos porque pueden ser usados para generar cambios efectivos, elevar el prestigio del país o la ciudad anfitriones e impulsar su desarrollo económico, político y social. El mismo estudio de Deloitte indica que “la mayoría de los organizadores recibe beneficios significativamente mayores que lo invertido en tiempo, dinero y esfuerzo”. Pero no todos los países o las ciudades son candidatos a albergar eventos de semejante envergadura por razones obvias (economía, infraestructura, componentes de seguridad, capacidad de inversión, etcétera), a las que se suman intangibles en el éxito de la organización y el desarrollo de las justas, como la pasión o el liderazgo. Las ganancias que un evento deportivo de características ecuménicas puede generar para el anfitrión se traducen en prestigio mundial, incremento de número de visitantes al país o la ciudad y comercialización, ya que las competencias suelen ser un foco de inversión de grandes marcas, que ven en ello una oportunidad única de ampliar su presencia en los mercados y conquistar nuevos públicos, gracias a su patrocinio del certamen, además de las compañías locales, que deben ser incluidas por el gobierno en el engranaje comercial.
Os lucros exorbitantes dos megaeventos, associados à venda dos produtos esportivos, mobilizam verdadeiras fortunas, que não chegam às mãos de projetos sociais, tampouco modificam as políticas esportivas, por exemplo, do Brasil, futura sede do Campeonato Mundial de Futebol e dos Jogos Olímpicos.
A experiência dos Jogos Pan-Americanos ainda nos chama atenção, no aspecto das contas, auditadas e não aprovadas até os dias de hoje. Claramente vemos tão somente a ganância dos dirigentes em auferir lucros exorbitantes com as “negociatas” dos megaeventos.
No caso de nossa amada Curitiba, estamos diante de um impasse: vamos sediar a Copa do Mundo, entretanto nossas políticas para detecção e desenvolvimento do talento esportivo sobrevivem graças a bolsas para alguns atletas “potenciais”. Todavia, um programa de desenvolvimento do esporte não existe, a exemplo do Ministério do Esporte, que erroneamente se preocupa com as grandes construções em detrimento do desenvolvimento sustentável do esporte e dos atletas.
As políticas esportivas adequadas, como por exemplo aquela desenvolvida pelo Fútbol Club Barcelona, não existem. Recentemente estive em contato com o diretor de Base do Barcelona, Julio Moreno. Ouvi dele, categoricamente, que a forja do talento passa pela atenção aos aspectos biológicos, psicológicos e sociológicos do atleta, incluindo sua família. Enquanto nossos clubes sobrevivem das “peneiras” para atender aos “jogadores” apadrinhados por empresários, o FC Barcelona fornece jogadores para vários clubes da Europa, advindos de sua base.
Falo do futebol, mas isso também inclui outros esportes olímpicos, como o hóquei sobre a grama, treinado em Curitiba sem qualquer apoio; o badminton, que busca espaço na UFPR; a esgrima; a luta olímpica, que é o terceiro esporte em números de medalhas para o Brasil e mesmo assim perde atletas excepcionais para o mundo do trabalho.
Necessitamos de políticas esportivas efetivas, em nível municipal, estadual e federal. Atitudes que busquem além da formação de novos atletas talentosos, a promoção de programas de inclusão de suas famílias no mundo do trabalho. Isso pode ser feito através da qualificação das famílias para fabricar materiais esportivos, tais como malhas de luta, sapatilhas, armas para esgrima, redes para badminton, bastões para o hóquei, etc., seguindo o modelo chinês, que assim barateou o custo dos equipamentos esportivos a níveis compatíveis com o mercado comprador. Verba para isso abunda, no Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), do Ministério do Trabalho e Emprego.
Também podemos realizar a capacitação de jovens recém graduados no Ensino Médio, sem formação profissional, que por meio de programas de qualificação podem se tornar gestores públicos esportivos e atuar nos bastidores da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Ao término desses torneios, poderiam ainda ser absorvidos pelo mundo do trabalho, inicialmente nas empresas estatais e depois, ao aperfeiçoar sua qualificação, no mundo do trabalho como um todo.
Aí sim poderemos alcançar o tão propagado legado dos megaeventos esportivos, oferecendo-o ao povo das nossas cidades-sede e ao país como um todo, que receberá melhorias efetivas.
Enquanto perdurarem escândalos e mais escândalos, prevalecer a impunidade dos “cartolas”, que reinam no império absolutista do “Rei Sol”, sem qualquer interferência do Estado ou da Justiça, e os apaixonados espectadores continuarem consumindo produtos do futebol e sustentando esse império de corrupção e impunidade, tudo será como antes.
Mas o que devemos esperar de um país que investe muito pouco em educação, ciências e tecnologia?
Dr. Sérgio Luiz Carlos dos Santos (PhD), autor da tese doutoral: “Propuesta de un modelo de gestión universitária para La atención a los niños en situación de riesgo social a traves Del deporte en La ciudad de Curitiba”.
***
Referências bibliográficas:
Betrán, J. O. Estúdios sobre las emociones Del deporte. Barcelona: Apunts, 2011.
http://www.strategia.com.br/Casos/casos_corpo_reebok_mercado.htm
, acessado em 18/03/11.
www.deloitte.com/view/pt_BR/br/index.htm, acessado em 18/03/2011.
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/flavia-tavares-no-estadao-a-ginga-perfeita-dos-donos-da-bola.html
, acessado em 18/03/11.
Alceu Bestel morreu na semana passada de infarto, aos 60 anos. Há 39, chefiava a cozinha do tradicional Bar Palácio. Era irmão de Sebastião Bestel, garçom do mesmo restaurante, com um pouco menos de tempo de casa. Alceu passou parte da vida incógnito preparando os famosos Churrasco Paranaense, Fillet à Griset e outros pratos para gerações de curitibanos. Primeiro, na Barão do Rio Branco; depois, na André de Barros.
Mas o mais triste é saber que sua morte poderia ter sido evitada se a saúde pública brasileira fosse mais eficiente. Durante três dias Alceu sentiu dor no braço esquerdo. Levado pelo irmão a um posto de saúde da prefeitura, foi medicado, mas o médico que o atendeu pediu uma série de exames, que foram marcados pelo SUS para janeiro de 2012. Alceu não tinha plano de saúde. Só de viver mais alguns anos.
Coluna do Reinaldo Bessa, Gazeta do Povo, 17/08/2011.
A nota acima foi publicada em coluna jornalística prestigiada pelo “grand monde”. Daquelas que noticiam festinhas de quinze anos, vernissages e inauguração de loja chique no shopping.
Não fosse o Alceu figura de destaque na gastronomia curitibana, o assunto não teria merecido uma só linha, nem despertaria o menor interesse da turma das SUVs 4×4 que roda nas cercanias da Pracinha do Batel.
Afinal, a turma da manada dos 4×4 tem plano de saúde, frequenta clinicas luxuosas, tem outras preocupações mais urgentes, como a eleição no Clube Curitibano, o cardápio no Bar do Golfe do Graciosa e a cotação do dólar.
No entanto, o drama do Alceu não é fato isolado. Na Curitiba “da família” (‘das famiglias’?) esta tem sido a regra. A propaganda oficial ‘mostra’ a excelência de um sistema de saúde modelo… mas tem que caprichar no ‘photoshop’!
Os Alceus, os Sebastiãos, as Marias, as Zeferinas – cidadãos ‘sem SUV’ – são atendidosem Unidades Básicase Centros Municipais de Urgências construídos, reformados ou ampliados no século XXI… mas que funcionam com o modelo de atenção da primeira metade do século XX.
Apenas 36% da população curitibana está cadastrada pela Estratégia de Saúde da Família. A grande maioria dos usuários é atendida com base na “demanda”, na hora do episódio agudo, sem políticas efetivas de prevenção. A média mensal de visitas dos agentes comunitários de saúde por família é de 0,08 (!!!). (O ideal seria que cada família fosse visitada ao menos uma vez a cada dois meses…)
Consultas de especialidades e exames complementares demoram meses. A lista de espera não é divulgada. Hospitais correm a atender procedimentos de alta complexidade, porém o cidadão que necessite de coisas mais simples (como operar uma hérnia ou realizar uma endoscopia) enfrenta as maiores dificuldades.
É absolutamente necessário rediscutir o modelo de atenção à saúde adotado em nossa cidade. Deixar de lado carimbos, rótulos e ‘grifes’, para trabalhar com base real nas demandas da comunidade. Antecipar-se aos problemas, radicalizar no modelo da Estratégia de Saúde da Família (ESF) – busca ativa e acompanhamento dos pacientes do diabetes, hipertensão, câncer de mama, colo de útero, próstata; realizar atividades de promoção da saúde; ampliar a atenção em saúde mental e a atenção aos adolescentes; entre outros.
Em resumo: nenhum “Alceu” passará 39 anos de sua vida trabalhando de madrugada na cozinha de um restaurante sem que a sociedade lhe retribua com o adequado acolhimento e atenção de sua saúde.
Há muito tempo, Curitiba é uma cidade dominada pela hegemonia de um único grupo político e engessada por diversos mitos – a cidade “modelo”, “sorriso”, “sustentável”; a cidade da “família”. Uma espécie de Canaã, a Terra Prometida pelos marqueteiros aos migrantes do interior do Paraná e de outras partes do país. A dona de um padrão que deveria guiar o restante do globo.
Em um contexto como esse, torna-se difícil o surgimento de espaços para a discussão, para o debate sobre as políticas públicas desenvolvidas pela administração municipal e sobre o espaço público em que elas estão inseridas.
O blog CuritibaQuer pretende ser um lugar para isso. A partir de diferentes temas – saúde, educação, assistência social, cultura, mobilidade urbana, relações de poder, etc – lançaremos periodicamente neste espaço um texto inicial (ou texto-provocação) para incentivar a discussão a respeito da cidade. Discussão que poderá se aproveitar exclusivamente das ferramentas digitais ou ainda ser expandido, posteriormente, para um espaço físico.
A pretensão é, desde já, engrossar o caldo do debate político que desembocará nas eleições municipais do ano que vem. Não se fala tanto, eleição após eleição, na falta de ‘propostas concretas’? Por que não, então, começar a discutir a cidade com antecedência? Quem sabe daqui ainda podemos tirar sólida colaboração para um plano de governo.
Com o tempo, a intenção é aumentar o número de colaboradores, além de começar a produzir conteúdos jornalísticos – reportagens, entrevistas – a respeito da cidade.
Sugestões de conteúdos ou de temas podem ser deixadas nos comentários, enviadas para curitibaquer@gmail.com, para o Twitter @Curitiba_Quer ou ainda para o Facebook.
Democraticamente, vamos debater o que nós, curitibanos nascidos aqui ou não, de fato queremos para a cidade. Sabemos que, para chegar a Canaã, ainda é preciso fazer boa parte da ‘travessia do deserto’. Sem guias ou eleitos, vamos fazer isso juntos.